Traduzamos inicialmente, de forma literal, o termo Human Nature como “natureza humana”. Será Hannah Arendt quem melhor nos ajuda a compreendê-lo. Para a autora, a essência do Homem reside na ação transformadora que ele perpetra sobre o mundo. O trabalho humano produz um mundo artificial, transformado, material e espacialmente, segundo as conveniências da sua existência. A essência do ser humano não reside portanto em alguma explicação metafísica, mas na sua capacidade de artificializar o mundo natural segundo as suas necessidades de vida. A qualidade de homo faber fabricante do mundo assegura a sobrevivência da espécie, mas também a ultrapassa em benefício da abundância, afirma Arendt. A autora utiliza o termo “metabolismo do Homem com a natureza” para se referir à relação de consumo da humanidade para com o meio; enquanto Karl Marx afirmava, em pleno curso da Revolução Industrial no século XIX, que a produtividade humana implica necessariamente a destruição da natureza.

Pois os desdobramentos alarmantes da natureza humana sobre o mundo conferem urgência ao tema. A área desmatada da Floresta Amazónica para pecuária e construção de estradas, na primeira década deste século, foi seis vezes maior do que Portugal. O consumo não sustentável das cidades é hoje responsável pelo lançamento de verdadeiros “mares deplástico” nos oceanos do mundo. É experimentado na prática por nós hoje os efeitos do desequilíbrio sazonal das estações causado pelo dióxido de carbono dos automóveis e do intenso tráfego aéreo mundial. Além disso, a diminuição da biodiversidade atinge recordes com o desaparecimento de um número nunca antes registado de espécies animais.

As mudanças no clima, a perda da biodiversidade e a degradação do solo são três lados diferentes do mesmo processo da ação antrópica sobre a natureza. Tais alterações, contudo, já não estão restritas apenas à esfera ambiental e biológica. A ciência fala hoje em “alterações geológicas irreversíveis” devido às atividades de prospecção de petróleo e de extração de minério de camadas profundas da terra. O desmatamento e a ocupação inadequada do solo na agropecuária são responsáveis pela desertificação de extensos territórios nas Américas, na Ásia, Europa e África. O irónico paradoxo que envolve a natureza humana é que, ao mesmo tempo em que o ser humano fabrica objetos, inventa novos materiais, transforma o meio e modifica paisagens para alterar os condicionamentos impostos pelo espaço natural, essa artificialidade também o ameaça.

A arquitetura, ao lado da indústria e da engenharia, são agentes decisivos de transformação de matéria natural em volumes e edifícios, objetos habitáveis, espaços artificiais criados pelo Homem. O desenvolvimento de uma sensibilidade ecológica ampla e urgente passa hoje pela percepção do espaço do planeta como um complexo geológico de interdependência entre as matérias naturais e as matérias criadas pelo ser humano  as cidades, em especial, o artifício geológico mais notável da humanidade. O Human Nature, tema do Arquiteturas 2019, pretende portanto discutir um sentido eco-relacional que amplie a compreensão da arquitetura como mero labor humano criador de espaço de abrigo para reconfigurá-la como uma agente protagonista na alteração ambiental e geológica do planeta.

No âmbito desse cenário, o cinema de arquitetura, cuja essência reside precisamente na apreensão, representação e problematização do espaço, torna-se um instrumento privilegiado para conferir visibilidade à relação cada vez mais conflituosa entre Homem e natureza. Na programação do Arquiteturas deste ano, propõe-se investigar e discutir as diversas transformações que têm sido acionadas pela natureza humana.

O norte-americano Anthropocene: The Human Epoch, um dos filmes que melhor traduzem o Human Nature, sonda a iminência do fim da era geológica da terra sob dominação dos seres humanos. No mesmo âmbito, Scenes From a Dry City e Thank you for the rain mostram o esgotamento dos recursos hídricos na África do Sul e no Quénia. A vida em “cidades extremas”, marcadas pela indústria pesada das minas é o tema dos documentários Melting Souls e Centrallurgy. A resistência de técnicas tradicionais de construção é tratada no nepalês Smoke through a Spider, enquanto a arquitetura socialmente envolvida é discutida em Learning by Doing e Enchanted Crimée.

Portugal será representado por Russa, de João Salaviza e Ricardo Alves Jr.,sobre a memória coletiva e as transformações recentes da cidade do Porto; Civitas, de André Sarmento, e Alis Ubbo, de Paulo Abreu, ambos sobre o processo de “turistificação” em Lisboa. A ficção Lá vem o dia , de Merces Tomaz Gomes, trata da relação entre o morar contemporâneo e as relações afetivas. Esta edição traz ainda a estreia da curta de animação portuguesa O atelier do meu avô, do arquiteto Tiago Galo, em exibição no atelier para crianças do festival e o recém estreado filme Tudo é Paisagem que retrata a história da arquitetura paisagística em Portugal.

Personalidades em foco nos filmes deste ano são o cineasta Andrzej Wajda e a sua paixão pela arquitetura; a Bauhaus que completa 100 anos de existência em 2019; e os movimentos italianos de design e arquitetura radicais da década de 60 e 70 como o UFO, o Archizoom e o Superstudio. O arquivo do grande mestre mexicano Luis Barragán é tema do filme The Proposal. O famoso projeto de habitação social em Milão, o Gallaratese, de Aldo Rossi, é tema do filme Monte Amiata, e a obra símbolo do modernismo na Inglaterra, dos icónicos arquitetos Alison e Peter Smithson, é retratada em The Disappearance of Robin Hood.

A Holanda será o país homenageado da edição de 2019, incluindo uma programação com o alto patrocínio da Embaixada da Holanda em Lisboa: um workshop do colectivo holandês Failed Architecture, conhecido pelos seus casos de estudo sobre os falhanços do modernismo e o crescimento urbano das cidades,  em conjunto com a realizadora Petra Noordkamp, premiada duas vezes por melhor filme no Arquiteturas. O workshop consiste numa investigação e recolha audiovisual sobre a atual situação da praça Martim Moniz em Lisboa, a culminar em ensaios cinematográficos dos participantes. A programação holandesa conta ainda com uma master class sobre filmes de arquivo de arquitetura, com Melanie van der Hoorn, autora do livro Spots in Shots: Narrating the built environment in short films, João Rosmaninho e Tiago Batista; e com a presença dos ateliers de arquitetura Atelier Bureau Sla e Space&Matter, premiados várias vezes pelas suas características sustentáveis.