Esta sessão faz parte da Masterclass Filmes do Arquivo

 

A primeiro longa-metragem de José Leitão de Barros (1896-1967) é um trabalho verdadeiramente notável, fundindo influências estéticas e tradições artísticas tão diversas quanto o cinema de vanguarda europeu, a reportagem jornalística e o palco do vaudeville. Anunciada na altura da sua estreia não só como um “documentário”, mas também como uma “crónica”, a “Lisboa: Crónica Anedótica” tem uma estrutura híbrida que confundiu os críticos contemporâneos e colocou o filme no pano de fundo da carreira de Leitão de Barros. (a aclamada ‘Maria do Mar’ estreou no mesmo ano) e a história do cinema mudo português (‘Douro, Faina Fluvial’ de Manoel de Oliveira foi apresentada no ano seguinte).

“Documentário” era um novo conceito na época; na verdade, o termo recém cunhado teve um dos seus primeiros usos em Portugal em relação a este mesmo filme. “Lisboa: Crónica Anedótica” incorpora assim o conceito e a prática de um novo género, além da mudança de interesses e experiência profissional do realizador, que abrange cinema, jornalismo e teatro. Se o vemos como o resultado da interseção dessas várias disciplinas, podemos apreciar melhor a sua diversidade formal (mudança entre documentário e ficção, entre captar a modernidade e exaltar a tradição), bem como a sua estrutura episódica (esboços de teatro ao lado de fotoreportagens temáticas) e sua configuração flexível (transformando-se em diferentes versões, adaptadas a públicos específicos: lisboenses, portugueses e estrangeiros) – todas as coisas que tornam um trabalho fundamental, oferecendo uma visão reveladora sobre a cultura portuguesa no final da década de 1920.

 

 

Lisboa: Uma Crónica Anedótica

José Leitão de Barros
Portugal 1930, 125’