O deserto é um meio ambiente singular, tanto pelas configurações geológica e geográfica adversas ao ser humano quanto pelo clima e escassez de recursos hídricos. Diante de tais condições, como é que o Homem, a partir das suas práticas culturais locais, se relaciona arquitetonicamente com o deserto e o transforma num meio habitável?

Transitions mostra uma “fronteira urbana expandida” sobre o deserto, que vai do lado de fora da cidade de Las Vegas, nos Estados Unidos, até o âmago construído da cidade pós-moderna, com os seus edifícios kitsch e espelhados. A curta experimental reflete sobre como as fronteiras das cidades nunca são linhas precisamente demarcadas, configurando-se sempre como largos territórios ocupados e artificializados. O sobrevoar da câmara pelas ruas do subúrbio até ao centro da cidade retrata a variação de formas, escalas e materiais da intervenção do Homem na natureza. O sprawl consome a superfície do espaço natural, contudo, no confronto entre o natural e o construído, o deserto californiano mostra-se silenciosamente soberano, determinando e condicionando a ação humana.

Não surpreende que no documentário Desert View, filmado nos arredores desérticos da cidade do Cairo, capital do Egito, a tipologia das casas e o desenho das ruas lembrem as de Las Vegas. Afinal, as formas do sprawl urbano evoluíram no último século como uma fórmula universal. Na experiência africana, contudo, a ocupação da fronteira entre o deserto e a cidade é diferente do que se vê nos abastados subúrbios norte americanos, configurando-se mais como um processo de periferização do entorno. Ainda assim a lógica do sprawl está presente: Nos arredores da cidade do Cairo também se encontram os condomínios fechados, bairros inteiros distantes e autónomos dos velhos e conturbados centros, lugares apartados que funcionam como oásis construídos por e para classes mais privilegiadas.

 

Transitions

Aurèle Ferrier
Suiça, 2017, 12’
Competição Experimental
Estreia Portuguesa

 

 

Desert view

Daniel Kötter/Constanze Fischbeck
Alemanha, 2018, 83’
Competição Documentário
Estreia Portuguesa