A cena cultural em Portugal tem se desenvolvido em grande parte em torno da iniciativa de associações culturais instaladas em edifícios antigos, espaços comunitários que funcionam não apenas como ateliers de arte, mas também como locais de encontro, de exposições, concertos, performances e workshops. 211 Avenue é um curta experimental que denuncia a transformação de um desses centros culturais em um condomínio de luxo. Enquanto a obra de retrofit acontece, o filme narra silenciosamente as memórias e vivências de uma geração de artistas lisboetas deixadas nas paredes dos cômodos do Edifício 211 da Avenida da Liberdade.

Lisboa é também a personagem do curta experimental Civitas, e os usuários da cidade são seus coadjuvantes. Habitantes locais e turistas utilizam espaços públicos como praças, museus, parques, estações de metro e as margens do Tejo. Não há narrativa no filme, apenas a sequência das imagens e os sons da cidade a evocar a atmosfera urbana e a sensação de lugar da cidade.

A personagem de The Divine Way lança-se, ao longo dos 15 minutos do filme, num movimento incessante de descida de escadarias de diversos edifícios numa sequência hipnótica. Para além da metáfora da descida ao inferno inspirada na Divina Comédia de Dante, estas imagens podem também ser lidas como uma reflexão fenomenológica sobre a memória e a(s) história(s) gravada(s) nos estilos da arquitetura.

Estilo é uma questão-chave para se falar também de Reconstructed City . O filme coloca em foco a tendência cenográfica da arquitetura pós-moderna na reconstrução dos edifícios históricos bombardeados durante a segunda guerra mundial nas cidades da Alemanha. É um filme sobre a transformação do velho em novo e sobre o valor patrimonial que se perde ao se revitalizar “teatralmente” a arquitetura histórica. Em termos benjaminianos, o que se perde com essas cópias historicistas não é apenas a autenticidade dos edifícios, mas a própria aura material da arquitetura.

Há uma consonância entre o tema Human Nature do Arquiteturas 2019 e o filme Life On The Mississippi.  O realizador do doc fiction interessa-se por interpretar a apropriação e a reconfiguração de paisagens naturais pelo ser humano, a exemplo do Rio Mississípi, o terceiro maior do mundo. Utiliza para isso modelos em escala reduzida de barcos, simuladores de navegação virtual e maquetes do rio para compreender a sua geologia, marés, o seu leito e margens. O filme percorre o trajeto fluvial de Saint Louis a New Orleans, o mesmo narrado por Mark Twain no livro Life On The Mississippi, para contar a vida e a história das cidades ribeiras dos estados do Missouri, do Mississípi e da Louisiana.

211 Avenue  

Francisca Manuel
Portugal, 2018, 7′
Competição Experimental

The Divine Way  

Ilaria Di Carlo
Alemanha, 2018, 15’
Competição Ficção
Estreia portuguesa

Reconstructed City  

Jörn Staeger
Alemanha, 2017, 14’
Competição Experimental
Estreia portuguesa

Civitas

André Sarmento
Portugal, 2018, 12’
Competição Experimental

Life On The Mississippi

Bill Brown
EUA, 2018, 28’
Competição Documentário
Estreia Portuguesa