Learning from Fiction Programa

O que é que podemos aprender com ficção?
Muito. Tanto quanto com a realidade

No cinema, nem sempre é fácil ter a certeza se estamos a ver um documentário ou um filme de ficção. O modo de produção pode dar-nos uma pista. Se há uma programação de filmagens do princípio ao fim, é ficção, se não há, é um documentário. No entanto, isto nem sempre é uma pista fiável. O estilo do filme pode ser confuso, intencionalmente ou não. É uma ficção ou é um documentário? A ficção tem sempre um aspecto documental e um documentário tem sempre alguém a ‘representar’ frente à câmara. Nesse sentido, mesmo o cinéma vérité, o estilo de documentário desenvolvido pelo realizador e antropólogo Jean Rouch (1917-2004), é ficção. A ficção de criar uma narrativa que ou mostra a verdade ou cria a verdade.

Na última década, na sequência de séries televisivas como Curb Your Enthusiasm (USA, 2000-) de Larry David ou The Office (UK/USA, 2001-2013) de Ricky Gervais, tanto a televisão como o cinema adoptaram um formato híbrido criando mockumentaries (trabalhos ficcionais em formato de documentário) e docudramas (trabalhos baseados na realidade em formato ficcional). Quando visto pela primeira vez, alguns deles fazem lembrar a experiência de rádio de Orson Welles, em 1968, em que uma dramatização da obra de H.G. Wells, A Guerra dos Mundos (1898) sobre uma invasão de extraterrestres, gerou um reação real por parte dos que estavam a ouvir, tomando-o por um acontecimento real.
O sentido de ‘ficção’, palavra que faz parte do mote da 6ª edição do Arquiteturas, tinha por objectivo motivar propostas mais arrojadas, mais criativas e divertidas. Até certo ponto, fomos bem sucedidos. Vários filmes que vamos exibir podem ser classificados como documentário ou ficção. Outros, é quase impossível decidir.

Columbus (2017), o filme warm-up, é talvez o exemplo mais óbvio de ficção nesta edição. Conta-nos uma história de amor passada em Columbus, Indiana (EUA) usando um enquadramento geométrico irrepreensível, inspirado pela exatidão da arquitetura.
O nosso filme de estreia Before My Feet Touch the Ground (2017), é um bom exemplo de formato híbrido. É um documentário contra a gentrificação e aumento de preços das casas em Tel Aviv, contada por Daphni Leef na primeira pessoa, simultaneamente líder do movimento em Israel, personagem principal e realizadora do filme. É um filme de protesto contra um fenómeno pelo qual muitas cidades estão a passar um pouco por todo o mundo e, por isso, relevante.

Arquitetura é sempre criar ficção. Mas o que é que acontece quando a ficção entra em conflito com a realidade? Não só o cinema mas também a arquitetura tem um linha ténue que separa a ficção da ‘realidade’. Será que a criatividade sofre se a arquitetura escolhe ser mais sensível a aspectos sociais? Isso é relevante? Os filmes que selecionámos têm por objectivo contribuir e gerar alguma reflexão sobre estas questões. Em última instância, a arquitetura, ao criar ficção define a nossa realidade. É uma competência poderosa que deve ser usada com peso e medida.

Este ano, exibimos as biografias de Tadao Ando, Francis Kéré e Alfredo Jaar (que irá apresentar uma conferência); filmes sobre a experiência do espaço urbano (Istanbul Echos, Tudo o Que Imagino, Na Bolha, Greater Things); sobre a experiência de ser um refugiado antes (Red Trees) e agora (Exodus); sobre arquitetura moderna (Experimental City, A Spa. Architecture of Zawodzie and The Body and the Modernist City); sobre a bolha de especulação imobiliária na China (Dream Empire); sobre a experiência coletiva de design urbano (Do More With Less, Die Laube); sobre a influência dos jogos de vídeo no planeamento urbano (Gaming the Real World) e; sobre o problema de escala na arquitetura (Pop Aye). As curtas exibidas, valendo por si próprias, operam como aperitivo ou intermezzo.

A fechar a edição deste ano, mostramos Moriyama-San (2017) realizado por Ila Bêka e Louise Lemoine sobre Yasuo Moriyama, o “ermita urbano” que vive numa casa construída por Ryue Nishizawa — um dos dois fundadores do atelier japonês SANAA vencedor de um Pritzker. O filme é um óptimo exemplo do mote desta edição mostrando Moriyama que cria a sua própria ficção no espaço que Nishizawa criou – uma ficção arquitectónica – através do filme. Três narrativas entretecidas. É difícil decidir se estamos a ver uma ficção ou um documentário, mas contrariamente ao que aconteceu durante o século XX, hoje em dia, não temos de decidir. Podemos simplesmente disfrutar e é isso que esperamos que façam!

Diana Soeiro
Curadoria
Investigadora Integrada em Filosofia, Universidade Nova de Lisboa

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O que é que podemos aprender com ficção?
Muito. Tanto quanto com a realidade

No cinema, nem sempre é fácil ter a certeza se estamos a ver um documentário ou um filme de ficção. O modo de produção pode dar-nos uma pista. Se há uma programação de filmagens do princípio ao fim, é ficção, se não há, é um documentário. No entanto, isto nem sempre é uma pista fiável. O estilo do filme pode ser confuso, intencionalmente ou não. É uma ficção ou é um documentário? A ficção tem sempre um aspecto documental e um documentário tem sempre alguém a ‘representar’ frente à câmara. Nesse sentido, mesmo o cinéma vérité, o estilo de documentário desenvolvido pelo realizador e antropólogo Jean Rouch (1917-2004), é ficção. A ficção de criar uma narrativa que ou mostra a verdade ou cria a verdade.

Na última década, na sequência de séries televisivas como Curb Your Enthusiasm (USA, 2000-) de Larry David ou The Office (UK/USA, 2001-2013) de Ricky Gervais, tanto a televisão como o cinema adoptaram um formato híbrido criando mockumentaries (trabalhos ficcionais em formato de documentário) e docudramas (trabalhos baseados na realidade em formato ficcional). Quando visto pela primeira vez, alguns deles fazem lembrar a experiência de rádio de Orson Welles, em 1968, em que uma dramatização da obra de H.G. Wells, A Guerra dos Mundos (1898) sobre uma invasão de extraterrestres, gerou um reação real por parte dos que estavam a ouvir, tomando-o por um acontecimento real.
O sentido de ‘ficção’, palavra que faz parte do mote da 6ª edição do Arquiteturas, tinha por objectivo motivar propostas mais arrojadas, mais criativas e divertidas. Até certo ponto, fomos bem sucedidos. Vários filmes que vamos exibir podem ser classificados como documentário ou ficção. Outros, é quase impossível decidir.

Columbus (2017), o filme warm-up, é talvez o exemplo mais óbvio de ficção nesta edição. Conta-nos uma história de amor passada em Columbus, Indiana (EUA) usando um enquadramento geométrico irrepreensível, inspirado pela exatidão da arquitetura.
O nosso filme de estreia Before My Feet Touch the Ground (2017), é um bom exemplo de formato híbrido. É um documentário contra a gentrificação e aumento de preços das casas em Tel Aviv, contada por Daphni Leef na primeira pessoa, simultaneamente líder do movimento em Israel, personagem principal e realizadora do filme. É um filme de protesto contra um fenómeno pelo qual muitas cidades estão a passar um pouco por todo o mundo e, por isso, relevante.

Arquitetura é sempre criar ficção. Mas o que é que acontece quando a ficção entra em conflito com a realidade? Não só o cinema mas também a arquitetura tem um linha ténue que separa a ficção da ‘realidade’. Será que a criatividade sofre se a arquitetura escolhe ser mais sensível a aspectos sociais? Isso é relevante? Os filmes que selecionámos têm por objectivo contribuir e gerar alguma reflexão sobre estas questões. Em última instância, a arquitetura, ao criar ficção define a nossa realidade. É uma competência poderosa que deve ser usada com peso e medida.

Este ano, exibimos as biografias de Tadao Ando, Francis Kéré e Alfredo Jaar (que irá apresentar uma conferência); filmes sobre a experiência do espaço urbano (Istanbul Echos, Tudo o Que Imagino, Na Bolha, Greater Things); sobre a experiência de ser um refugiado antes (Red Trees) e agora (Exodus); sobre arquitetura moderna (Experimental City, A Spa. Architecture of Zawodzie and The Body and the Modernist City); sobre a bolha de especulação imobiliária na China (Dream Empire); sobre a experiência coletiva de design urbano (Do More With Less, Die Laube); sobre a influência dos jogos de vídeo no planeamento urbano (Gaming the Real World) e; sobre o problema de escala na arquitetura (Pop Aye). As curtas exibidas, valendo por si próprias, operam como aperitivo ou intermezzo.

A fechar a edição deste ano, mostramos Moriyama-San (2017) realizado por Ila Bêka e Louise Lemoine sobre Yasuo Moriyama, o “ermita urbano” que vive numa casa construída por Ryue Nishizawa — um dos dois fundadores do atelier japonês SANAA vencedor de um Pritzker. O filme é um óptimo exemplo do mote desta edição mostrando Moriyama que cria a sua própria ficção no espaço que Nishizawa criou – uma ficção arquitectónica – através do filme. Três narrativas entretecidas. É difícil decidir se estamos a ver uma ficção ou um documentário, mas contrariamente ao que aconteceu durante o século XX, hoje em dia, não temos de decidir. Podemos simplesmente disfrutar e é isso que esperamos que façam!

Diana Soeiro
Curadoria
Investigadora Integrada em Filosofia, Universidade Nova de Lisboa

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