LET’S GET PHYSICAL: A METAMORFOSE DO ARQUITETO

A prática da arquitetura requer muitos saberes diferentes. Do arquiteto, esperamos a capacidade de conceber e moldar o futuro. É ele quem diz: vamos a isto, mãos à obra. Mais fácil dizer que fazer.

O arquiteto americano Frank Lloyd Wright (1867-1959) escreveu amplamente sobre o que considerava ser a melhor educação de um arquiteto. Porque a arquitetura era uma profissão exigente, coisa que Wright sempre insistiu em articular das mais diversas formas, a educação de um arquiteto devia começar no jardim de infância. Podemos considerar que esta afirmação é excessiva mas pode levar uma vida até que um arquiteto domine a sua profissão e talvez ninguém saiba melhor isso, do que os arquitetos.

O que é ser um arquiteto?

É sabido que a maioria dos projetos concebidos pelos arquitetos não chegam a ver a luz do dia. Isto requer uma grande tolerância à frustração e uma dose de narcisismo, com peso e medida – ainda assim, a combinação é potencialmente explosiva.

Este ano, o foco do Arquiteturas recai sobre quatro personalidades que partilham a ambição de corresponder às expectativas do habitante da cidade, segundo os seus próprios termos: o arquiteto holandês Rem Koolhaas (n.1944); um dos arquiteto apadrinhados por Koolhaas’, Bjarke Ingels (n.1972) da Dinamarca; Álvaro Siza Vieira (n.1933) de Portugal e; a ativista americana Jane Jacobs (1916-2006).

Os filmes que mostram o seu trabalho, lançam o mote para todos os outros filmes exibidos no Arquiteturas que, de uma forma ou de outra, são acerca de testar os limites da arquitetura, quer tecendo relações de proximidade com outras artes, quer contando a história daqueles que quebraram fronteiras.

Em REM (2016) vemos como Koolhaas aborda o mundo da arquitetura, fomentando a atitude de um explorador. Um exemplo disto é o seu livro Delírio em Nova Iorque: Um Manifesto Retroativo para Manhattan (1978) considerou Nova Iorque como um exemplo levado ao extremo de uma cidade que abrange uma grande variedade de comportamentos urbanos e diferentes tipos de arquitetura, num estado de constante reinvenção.

Com a jornalista e ativista Jane Jacobs, em Citizen Jane – Battle for the City (2016), vemos, mais
uma vez, como Nova Iorque foi palco de uma das mais intensas batalhas do ‘direito à cidade’. A ideia tornou a vir ao de cima recentemente, na sequência da crise financeira de 2008. Jacobs defendia que os cidadãos devem ter um papel no modo como a cidade é desenhada porque são eles que detêm a capacidade de renová-la continuamente, habitando-a todos os dias.

Em Vizinhos (2016), fazemos uma visita guiada com o próprio Siza, a quatro dos seus projetos sociais dos anos 80, revisitados em 2016 no contexto da Bienal de Veneza. Neste documentário descobrimos, juntamente com o arquiteto, a surpreendente variedade dos acuais habitantes.

Big Time (2017), mostra-nos a imensurável amplitude da arquitetura atual no contexto da economia global. Ficamos a conhecer a perspectiva de um dos nomes mais badalados atualmente, o arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels, durante o processo de desenvolvimento de dois projetos de grande dimensão, em Nova Iorque — um deles, quase em frente ao primeiro projeto de Siza nos Estados Unidos (a concluir em 2018).

Os quatro filmes apontam para as exigências complexas e multifacetadas às quais os arquitetos de hoje têm de responder.

Ao que parece, os arquitetos respondem a esta exigência de amplitude, desempenhando muitas outras atividades, tornando-se curadores, designers, artistas, ativistas, escritores, realizadores, fotógrafos, assistentes sociais, e promotores imobiliários. Isto deve-se ao facto da arquitetura contemporânea exigir uma consciência a níveis muito diferentes, sabendo- se que é uma atividade que tem a capacidade de
moldar fenómenos estudados pela antropologia, sociologia, engenharia e política. Deste modo, quais são as exigências que um arquiteto enfrenta hoje em dia e como é que este se pode preparar para estar à altura dos desafios contemporâneos?

Neste momento, a nível mundial, vivemos um ritmo de crescimento urbano nunca visto e a população que vive em ambientes urbanos está também a crescer rapidamente. Neste contexto desafiante, a prática da arquitetura requer a colaboração de várias outras áreas de forma a poder dar resposta adequada. Deve um arquiteto procurar responder a este contexto ou não?

Com o papel crescente das tecnologias digitais no ambiente urbano, a nossa ideia do que é ‘a cidade’ está a tornar-se rapidamente numa sobreposição de camadas, tanto físicas como virtuais, ligando sítios dentro da cidade e também cidades entre si. No que se está a tornar a arquitetura e qual o papel dos arquitetos?

Talvez o cenário exigente de hoje em dia seja uma das causas principais para que o público em geral se tenha desencantado com a arquitetura e com os arquitetos. São as nossas expectativas, em relação aos arquitetos, altas demais? No que é que a arquitetura se está a tornar e qual o papel dos arquitetos? O Arquiteturas espera contribuir para clarificar estas questões dando, mais uma vez, voz aos realizadores e arquitetos. Esperamos que disfrutem as sessões que vos apresentamos este ano.

Diana Soeiro
Investigadora Integrada em Filosofia, Universidade Nova de Lisboa

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